DOCE
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Doce (1979-1987)


Quando, em 1979, Teresa, Fá, Laura e Lena se juntaram para formar as DOCE, prenunciando a reinvidicação de uma imagem atractiva e algo provocante, o universo musical português estava demasiado marcado por modelos de um certo puritanismo moral e formal, onde tudo era determinado pelo domínio da mensagem política, mais ou menos imediata.


Recordemos que tinham decorrido apenas cinco anos desde o 25 de Abril, e certas ousadias eram coisa rara e nunca vista do lado de cá das nossas fronteiras. As canções que interpretaram foram o prolongamento natural de uma atitude que compreendia o domínio da música pop num sentido alargado de espectáculo, onde se incluía uma ideia de “glamour” que pusesse as pessoas a sonhar, algumas ousadias na afirmação do corpo e, de um modo geral, procura de inovação e de uma imagem forte, obedecendo a uma concepção onde nada era deixado ao acaso.


Foi isto que fez das DOCE um grupo que desafiou o tempo português em que surgiu, trazendo consigo um suplemento de “escãndalo” que não era senão a marca da irreverência, do profissionalismo e da inteligência. Note-se que tudo isto se passou muito antes da onda das “girls band” que apareceram nos últimos anos um pouco por todo o lado.


O primeiro disco, “Amanhã de Manhã”, saído em 1980, ganhou uma enorme popularidade e continua a ser até hoje das músicas que maior sucesso fizeram no nosso país. Ainda nesse ano, concorreram ao Festival da RTP da canção com “Doce”. Obtiveram o segundo lugar , mas acederam, a nível nacional, a um lugar destacado no mundo da televisão e do espectáculo.


O primeiro album, saído ainda nesse ano, chamou-se “OK.KO.” e foi o ponto de partida para várias incursões internacionais. Nesse album encontram-se uma série impressionante de êxitos: “Café com Sal”, “O Que Lá Vai Lá Vai”, “Depois de Ti” e o próprio tema “OK.KO.”, single que foi editado antes do album.


Mas outro dos maiores êxitos do grupo teve lugar em 1981, graças a uma canção que apresentaram no Festival RTP: “Ali-Babá”. Não ganharam, o festival, mas viram a sua canção elevada ao maior sucesso comercial de sempre da história deste evento da música portuguesa. Entretanto, estava consolidada a imagem das DOCE, no seu papel inovador, entre nós, capaz de alguma agressividade e de provocar o desafio. Em termos estritamente musicais, pode dizer-se que nas suas canções se cruzam e combinam aspectos próprios da “pop”, do “disco” e do “rock”. Recordemos que na pré-história do grupo há um facto que importa ter em conta: três elementos (Teresa, Fá e Lena) tinham passado pelos Gemini. O segundo album, “É Demais”, marca também uma mudança radical de “look” e consolida-se a posição de grupo polémico, a imagem das DOCE ultrapassa aqui todas as espectativas e ganham uma projecção nacional que atravessa todos os estratos. Fazem parte desse album temas a solo como: “Uau”, na voz de Lena, “Eu Sou”, na voz de Laura, “Dói Dói”, na voz de Fá e “Desatino”, na voz de Teresa.


 O primeiro lugar no festival RTP da canção, obtiveram-no em 1982, com “Bem Bom”. O facto de representarem Portugal na Eurovisão constituiu um impulso para a experiência de um percurso internacional, tendo editado discos em espanhol e inglês, os singles “Bingo”, “Bim Bom”, “For the Love of Conchita” e “Starlight”. Com a edição internacional destes discos as DOCE dão a “volta ao mundo” visitando ínumeros países nos vários continentes. Das Filipinas aos Estados Unidos fizeram furor e foram notícia na imprensa internacional.


Regressando ao Festival em 1984, com “O Barquinho da Esperança”, assinaram ainda nesse ano um novo sucesso chamado “Quente, Quente, Quente”. Em 1987 despedem-se com um duplo album “Doce 1979-1987”, onde aparece “Rainy Day” gravado nas sessões da fase em inglês.


Basta evocar o nome de todas as canções que fizeram o estrondoso êxito das DOCE para percebermos que elas tinham uma carga de erotismo lúdico, até no modo como eram rigorosamente encenadas, contrastando fortemente com o lado sombrio e coercivo do meio social português. Este foi um dos contributos das DOCE, mas não o único pelo qual se podem orgulhar de terem alcançado um dos maiores reconhecimentos públicos jamais obtidos por um grupo, em Portugal.


 PAULO SCAVULLO, 2003


(1º Presidente do Clube de Fãs das Doce)


 


 

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